Por Elvécio Andrade
O Brasil está gravemente doente. Uma enfermidade que corrói a convivência democrática, contamina relações familiares, transforma adversários políticos em inimigos e, agora, parece querer fazer das escolas verdadeiras trincheiras ideológicas. O nome dessa doença política é extremismo. E uma de suas manifestações mais agressivas atende pelo nome de bolsonarismo. A democracia brasileira precisa urgentemente de um tratamento de choque. Não de quimioterapia contra pessoas, mas de doses maciças de educação, responsabilidade institucional, cumprimento da lei e respeito aos direitos fundamentais.
Porque, quando o ódio atravessa os portões de uma escola, é sinal de que ultrapassamos todos os limites do aceitável. No dia 26 de outubro, um episódio ocorrido numa escola pública municipal de Barra do Sahy, em Aracruz, no Espírito Santo, provocou indignação entre professores, servidores, pais e responsáveis, porque a diretora da unidade resolveu afixar na porta de sua sala um aviso proibindo a entrada de petistas. Sim, é exatamente isso!
Uma escola pública, mantida com recursos de todos os contribuintes, transformada, por iniciativa de sua própria dirigente, num espaço de discriminação por preferência político-partidária. É difícil imaginar demonstração mais explícita de despreparo para o exercício de uma função que exige equilíbrio, respeito, pluralidade e compromisso com a formação cidadã. Afinal, desde quando uma diretora de escola pública recebeu autoridade para selecionar quem pode ou não entrar em determinado recinto com base em convicções políticas?
A escola pertence à comunidade ou virou propriedade particular de quem ocupa temporariamente sua direção? O episódio causou causou tamanho constrangimento que até simpatizantes do bolsonarismo com acesso à unidade reprovaram a atitude. E não poderia ser diferente. A escola pública não é puxadinho de partido, extensão de comitê eleitoral nem território particular de militante político.
É um espaço democrático, no qual divergências devem ser respeitadas, jamais utilizadas como instrumento de segregação. A direção de uma escola exige capacidade de educar pelo exemplo. E que exemplo se oferece aos alunos quando a própria autoridade escolar coloca a intolerância na porta de sua sala?
Se o episódio de Aracruz já é suficientemente revoltante, o caso envolvendo a professora Marinalva do Carmo Gomes, em Melgaço, no Pará, consegue atingir um patamar ainda mais assustador. A professora foi afastada de suas funções após publicar mensagens nas redes sociais desejando que filhos de eleitores de Lula fossem vítimas de estupro.
É preciso repetir para compreender a dimensão da monstruosidade: uma profissional da educação, cuja missão deveria ser proteger, orientar e contribuir para a formação de crianças, desejou violência sexual contra menores simplesmente em razão da preferência política de seus pais. Não estamos falando de uma crítica ao governo, de uma discussão eleitoral acalorada ou de uma divergência ideológica. Estamos falando de manifestações absolutamente incompatíveis com a responsabilidade de quem trabalha com crianças.

A Secretaria Municipal de Educação instaurou procedimento e rescindiu o contrato da professora por justa causa. A escola também repudiou os ataques, ressaltando que a proteção das crianças deve estar acima de qualquer divergência política. Uma resposta institucional necessária diante da gravidade dos fatos relatados. E, como costuma acontecer em episódios dessa natureza, depois da repercussão negativa vieram o pedido de desculpas e a declaração de arrependimento. O problema é que arrependimento posterior não apaga automaticamente a gravidade de uma manifestação pública.
Os dois episódios apresentam comportamentos distintos, com gravidades diferentes, mas levantam uma questão comum: até quando a intolerância política será normalizada dentro de instituições responsáveis pela formação das próximas gerações? O bolsonarismo não inventou o ódio político brasileiro, mas ajudou a transformar a hostilidade contra adversários em instrumento de mobilização e identidade de parte de seus seguidores.
Nesse ambiente, o cidadão que pensa diferente deixa de ser alguém com quem se debate e passa a ser tratado como inimigo a ser constrangido, excluído ou humilhado. É a falência do diálogo. É a substituição do argumento pela agressividade. É a política transformada em fanatismo. E quando essa mentalidade encontra abrigo dentro de uma escola, o problema deixa de ser apenas político e passa a representar uma ameaça à própria missão educacional.
Professores e dirigentes escolares não precisam esconder suas convicções pessoais. Precisam, isso sim, compreender que suas funções públicas exigem respeito à diversidade de pensamento e, sobretudo, compromisso inegociável com a dignidade humana. Uma criança não pode ser discriminada porque seus pais votaram em Lula, Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Aliás, nenhuma criança deveria sequer ser envolvida nesse tipo de disputa. O Brasil não precisa de mais ódio, precisa é de responsabilização.
A Constituição Federal assegura a liberdade de consciência, de convicção política e a igualdade de todos perante a lei. Esses princípios não são sugestões que podem ser ignoradas conforme o resultado das urnas ou a preferência partidária de quem ocupa determinado cargo. São fundamentos de uma sociedade democrática. Por isso, episódios como os relatados precisam ser apurados com rigor, respeitados o contraditório e a ampla defesa, e acompanhados das providências administrativas e legais cabíveis.
No caso de Aracruz, cabe questionar quais medidas serão adotadas pela Secretaria Municipal de Educação diante da conduta atribuída à diretora. Afinal, se uma autoridade escolar não consegue conviver democraticamente com pessoas de diferentes orientações políticas, como poderá contribuir para formar cidadãos preparados para viver numa sociedade plural? Já o episódio de Melgaço demonstra a importância de uma resposta institucional firme quando manifestações de ódio ultrapassam qualquer parâmetro de civilidade e atingem até mesmo a proteção das crianças.
O Brasil não precisa exterminar adversários políticos. Precisa extirpar das instituições a intolerância, a discriminação e a naturalização da violência. Precisa recuperar a capacidade de discordar sem odiar. E, principalmente, precisa impedir que o fanatismo político transforme a escola pública num laboratório de segregação. Porque uma sociedade que permite que o ódio seja ensinado pelo exemplo não está apenas comprometendo o presente. Está condenando o próprio futuro.

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