Por Elvécio Andrade
Tem gente que depende do Bolsa Família, do Vale Gás, da Farmácia Popular e dos serviços públicos, mas sonha em eleger justamente um projeto político que pode colocar esses direitos na linha de tiro. É a contradição de quem ajuda a serrar o galho onde está sentado e ainda comemora quando a árvore começa a cair.
O trabalhador que acorda de madrugada para ganhar um salário que mal paga as contas, o microempresário que luta para manter as portas abertas, o aposentado que faz milagres para sobreviver até o fim do mês, o motorista de aplicativo que entrega a saúde ao trânsito para pagar combustível, aluguel e comida; a mãe que depende do Bolsa Família para colocar alguma coisa no prato dos filhos, a família que recorre ao Vale Gás, à Farmácia Popular e aos serviços públicos de saúde e educação porque não tem dinheiro para pagar tudo do próprio bolso.
Todos eles têm o direito de escolher seus candidatos. Mas também precisam compreender uma verdade inconveniente: o voto tem consequências, e nenhuma ideologia paga a conta do supermercado, compra o remédio que falta ou coloca comida na mesa quando os direitos sociais são desmontados. Por isso, quem depende dessas políticas públicas e pretende votar em Flávio Bolsonaro deveria fazer uma pergunta elementar: o que exatamente esse projeto político oferece para melhorar a vida de quem vive do próprio trabalho e não tem uma fortuna guardada para enfrentar as dificuldades?
Não basta vestir verde e amarelo, repetir palavras de ordem, compartilhar vídeos nas redes sociais e acreditar que o patriotismo se mede pela quantidade de bandeiras penduradas na janela. Patriotismo de verdade é defender o trabalhador brasileiro, a soberania nacional, o patrimônio público, as condições mínimas para que uma família viva com dignidade e não bater continência para bandeira de outro país.
E aqui entra uma das maiores contradições da política brasileira: o pobre que defende, com unhas e dentes, projetos econômicos que podem prejudicar justamente a sua classe social, enquanto imagina que os benefícios de eventuais privilégios reservados aos mais ricos também chegarão até ele. O rico pode até sobreviver ao corte de um benefício social. O pobre, muitas vezes, não consegue sobreviver ao corte de uma refeição.
É fácil defender a redução do Estado quando se tem plano de saúde, escola particular, patrimônio, investimentos e dinheiro para pagar uma aposentadoria confortável. Outra coisa é defender o desmonte de políticas públicas quando a consulta médica depende do SUS, o medicamento depende da Farmácia Popular e a alimentação da família depende de cada centavo recebido.
A pergunta que precisa ser feita é brutal, mas necessária: quando a propaganda eleitoral acabar, quem vai pagar a conta das escolhas políticas equivocadas? O político que prometeu o paraíso ou a família que ficará diante de uma geladeira vazia?
A memória curta e a política da
acusação
Também é impressionante ouvir pessoas repetirem, como se fossem verdades absolutas, que Lula quebrou o Brasil, sem apresentar dados, consultar indicadores ou comparar os resultados dos diferentes governos. Criticar Lula é legítimo. Nenhum presidente está acima das críticas, e nenhum governo merece um cheque em branco. Mas transformar a política em uma competição de frases prontas, sem examinar números, fatos e responsabilidades, não é exercício de cidadania. É terceirizar o próprio pensamento para a propaganda partidária.
Antes de afirmar que o Brasil está quebrado, é preciso olhar para a dívida pública, a inflação, o emprego, a renda, o crescimento econômico, os investimentos e o custo de vida. É preciso comparar períodos, considerar as circunstâncias de cada governo e verificar o que melhorou, o que piorou e quais problemas continuam sem solução.
E, quando se fala do governo Bolsonaro, também não se pode apagar da memória a tragédia da pandemia de Covid-19, as milhares de mortes, a fome que voltou a assombrar famílias brasileiras e as controvérsias e investigações relacionadas à corrupção. São questões que exigem análise séria, documentação e responsabilidade, não uma borracha ideológica para reescrever a história. Quem acusa um governo precisa apresentar evidências. Quem defende outro também. A verdade não pertence a partido algum.
Direitos sociais não são esmolas
O Bolsa Família não é favor pessoal de presidente, o SUS não é presente de político, a Farmácia Popular não é caridade eleitoral e a educação pública não é propriedade de governante nenhum. São políticas públicas, direitos e instrumentos de proteção social que precisam ser avaliados, aperfeiçoados e preservados conforme seus resultados e sua importância para a população.
O Brasil tem problemas enormes, e seria irresponsável fingir que todos foram resolvidos. A pobreza não desapareceu, a desigualdade continua, o custo de vida pesa e milhões de brasileiros ainda enfrentam dificuldades para conseguir atendimento médico, emprego e moradia digna. Mas reconhecer essas falhas não significa ignorar os avanços sociais conquistados ao longo das últimas décadas. Significa exigir mais, não aceitar menos.
Quem depende desses programas precisa conhecer as propostas de cada candidato, verificar se há planos de manutenção ou ampliação dos benefícios e cobrar compromissos concretos. Porque, quando um direito é enfraquecido, quem mais sofre raramente é quem tomou a decisão.
O Brasil não é propriedade de nenhuma
potência estrangeira
Existe outra questão que deveria unir brasileiros de todas as classes sociais: a soberania nacional. O Brasil não pode ser tratado como quintal de Washington, nem subordinar suas decisões aos interesses de qualquer potência estrangeira. Suas riquezas naturais, seus recursos estratégicos, sua biodiversidade e seu território precisam ser administrados em benefício do povo brasileiro, com responsabilidade ambiental e respeito à Constituição.
A Amazônia é brasileira, e sua preservação interessa ao Brasil e ao planeta. Defender a soberania não significa destruir a floresta, ignorar os povos indígenas ou fechar os olhos para a crise climática. Significa impedir que a defesa ambiental seja utilizada como pretexto para interesses econômicos externos, ao mesmo tempo que o próprio Brasil cumpre seu dever de proteger esse patrimônio.
E a mesma coerência vale para as relações internacionais. O Brasil deve condenar genocídios, terrorismo, crimes de guerra e violações dos direitos humanos, independentemente de quem os pratique. Deve defender a paz, a autodeterminação dos povos e a solução diplomática dos conflitos.
Bandeiras estrangeiras não são, por si só, símbolos de terrorismo ou genocídio. O que merece condenação são os crimes, as políticas de agressão e as violações de direitos, venham de onde vierem. Patriotismo não exige hostilidade contra povos; exige independência para defender os interesses nacionais sem submissão a governos estrangeiros.
Aos 80 anos, o que fica é o legado
Lula, aos 80 anos, disputa um lugar na história política brasileira que será julgado por suas realizações, seus erros, suas escolhas e seus resultados. É possível reconhecer a importância histórica de seus governos sem fingir que não existem críticas, problemas econômicos ou controvérsias.
Mas também é legítimo perguntar que país queremos deixar para as próximas gerações: um país que protege os mais vulneráveis e busca reduzir desigualdades ou um país que trata a proteção social como desperdício e a pobreza como problema exclusivo de quem nasceu pobre?
A discussão não deveria ser sobre idolatrar Lula, Bolsonaro ou qualquer outro político. Deveria ser sobre comparar propostas, examinar resultados e descobrir quem tem condições de governar sem sacrificar os direitos e as oportunidades de quem mais precisa. Porque político nenhum merece amor incondicional. O que merece defesa incondicional é a dignidade humana, a democracia, a soberania brasileira e o direito de cada cidadão a uma vida decente.
O voto é livre, mas a conta não
Quem votar em Flávio Bolsonaro não deixa de ser brasileiro, não perde o direito de ser respeitado e não merece ser privado de direitos por sua escolha política. Mas deve aceitar que escolhas eleitorais podem produzir consequências que atingem muito além das urnas. E quem depende de políticas sociais precisa ter consciência de que nenhum benefício está acima do debate público: é necessário verificar as propostas, acompanhar o orçamento, cobrar transparência e impedir que qualquer governo, de direita ou de esquerda, retire direitos sem justificativa e sem responsabilidade.
A maior tragédia não é o pobre votar em um candidato de direita. É votar sem conhecer as propostas, acreditar cegamente em promessas e descobrir tarde demais que a propaganda não pagava o aluguel, não comprava o gás e não garantia o remédio. Não entregue seu futuro a um sobrenome, a uma bandeira ou a um discurso de ódio. Examine os fatos, leia as propostas, compare os governos, pense nos seus filhos.
Porque, no fim das contas, o político volta para casa, cercado de assessores e protegido por privilégios. Já o trabalhador continua na fila do ônibus, o aposentado continua contando moedas e a mãe continua tentando fazer o alimento durar até o fim do mês. E, quando a conta chegar, não será a ideologia que sentirá fome. Será o brasileiro de carne e osso, inclusive aquele que acreditou estar votando contra os próprios problemas, sem perceber que poderia estar votando contra a própria sobrevivência.





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