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Os maiores perdedores foram os institutos de pesquisas, que provaram não acertar nada

Os institutos de pesquisa erraram feio

Por Elvécio Andrade 

Se existe uma categoria que deveria fazer uma profunda reflexão depois das últimas eleições, é a dos institutos de pesquisa. Afinal, quando a realidade das urnas apresenta resultados tão diferentes de determinadas projeções divulgadas ao longo da campanha, alguma coisa precisa ser explicada. E não adianta colocar a culpa nos eleitores, dizer que o vento mudou de direção ou atribuir tudo à imprevisibilidade do comportamento humano. 

Pesquisa eleitoral existe justamente para tentar medir esse comportamento, não para oferecer uma coleção de palpites embalados com gráficos coloridos e margens de erro. Mais de 90% dos levantamentos aos quais tivemos acesso apontavam Flávio Bolsonaro como vencedor, segundo os números que circulavam durante a campanha. Entretanto, o resultado final não correspondeu àquela expectativa. E aí fica a pergunta: onde foi parar tanta certeza estatística? 

Será que os eleitores mudaram de opinião em massa ou será que alguns institutos estavam enxergando uma realidade que simplesmente não existia? Particularmente, há muito tempo tenho minhas reservas em relação a pesquisas eleitorais. É difícil compreender como entrevistas realizadas com uma parcela relativamente pequena da população podem ser apresentadas como um retrato tão preciso da vontade de milhões de eleitores. É verdade que a estatística possui métodos científicos para trabalhar com amostras reduzidas. 

O problema não está necessariamente no tamanho da amostra, mas na sua composição, nos critérios de seleção, na metodologia utilizada e, principalmente, na transparência de quem realiza o levantamento. E é justamente aí que mora boa parte da desconfiança. Em um ambiente político profundamente polarizado, no qual interesses econômicos e eleitorais se misturam, é indispensável que os institutos tenham independência, transparência e credibilidade. 

Afinal, uma pesquisa divulgada às vésperas de uma eleição pode influenciar indecisos, estimular o voto útil, desmobilizar militantes e até criar uma falsa sensação de vitória ou derrota antecipada. Em outras palavras, uma pesquisa não apenas mede o cenário eleitoral: dependendo de como é divulgada e interpretada, também pode interferir nele. E não podemos ignorar a questão da independência política. Nas últimas eleições, as posições e os vínculos de determinados institutos foram objeto de questionamentos públicos. 

A Paraná Pesquisas, por exemplo, esteve no centro de controvérsias e discussões envolvendo suas relações com o universo político bolsonarista. Isso, por si só, não comprova manipulação de resultados, mas reforça a necessidade de transparência absoluta sobre financiadores, contratantes, metodologia e eventuais conflitos de interesse. Aliás, seria muito saudável que os responsáveis pelos institutos compreendessem que credibilidade não se compra com publicidade, não se fabrica com gráficos e muito menos se conquista repetindo números até que alguém acredite neles. 

Minha opinião é que o Brasil precisa discutir seriamente regras muito mais rigorosas para a realização e divulgação de pesquisas eleitorais. Não necessariamente proibi-las, mas exigir independência, transparência sobre os financiadores, divulgação integral dos questionários, critérios de amostragem, fiscalização efetiva e responsabilização em casos de fraude comprovada. 

Quanto à ideia de que os proprietários dos institutos não tenham lado político, embora seja compreensível, há uma questão importante: ninguém precisa ser politicamente neutro para trabalhar com estatística. O que se exige é independência técnica, transparência e compromisso com a metodologia, independentemente das preferências pessoais de seus proprietários. Porque, convenhamos, o eleitor brasileiro já tem problemas suficientes para decidir seu voto. 

Não precisa de instituto de pesquisa tentando lhe entregar uma realidade pronta, muito menos de uma espécie de horóscopo eleitoral com aparência de ciência. E fica uma sugestão aos institutos que erraram feio em suas projeções: antes de preparar a próxima pesquisa, talvez seja interessante fazer uma pesquisa interna para descobrir onde foi que perderam a capacidade de interpretar os números. 

Afinal, se nem os institutos conseguem acertar o que acontece nas urnas, como querem convencer o eleitor de que sabem o que se passa na cabeça dele? Pesquisa eleitoral deveria ser instrumento de informação, não de influência, pois, quando a credibilidade vai embora, nem a margem de erro consegue encontrá-la!

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