Por *Elvécio Andrade
São Gabriel da Palha, no Noroeste do Espírito Santo, amanheceu na quarta-feira, 16, diante de uma situação que ultrapassa, e muito, os limites de qualquer divergência política, ideológica ou pessoal. O prefeito Tiago Rocha (PL) e seus familiares foram alvo de ameaças nas proximidades da residência do chefe do Executivo municipal, no centro da cidade. Segundo a Prefeitura, o homem inclusive insinuou estar armado e que poderia efetuar disparos contra o prefeito, seus familiares e o imóvel.
Não se trata de crítica e nem de manifestação de descontentamento. Ameaçar alguém de morte é, violência, intimidação e é crime. E o episódio fica ainda mais grave diante da sequência de acontecimentos registrada naquela manhã. Quando a Polícia Militar chegou ao endereço indicado, o indivíduo já tinha fugido. Pouco depois, porém, houve informações de que ele continuava circulando pela cidade, causando desordem, bloqueando o trânsito, ameaçando outras pessoas e, segundo a polícia, agredindo um frentista de posto de combustíveis.
Localizado pelos militares, o indivíduo, cujo nome a polícia escondeu da sociedade sabe se lá porque motivo, desobedeceu às ordens de abordagem e apresentou resistência ativa, sendo necessário utilizar uma arma de choque para contê-lo. No veículo, os policiais encontraram um papelote de cocaína e nove pinos vazios. O criminoso também se recusou a realizar o teste do etilômetro.
Depois de receber atendimento médico, ele foi encaminhado à Delegacia de São Gabriel da Palha, onde acabou autuado em flagrante por dano qualificado, duas ameaças, resistência à ação policial e condução de veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa, sendo encaminhado ao CDP (Centro de Detenção Provisória), onde se encontra à disposição da Justiça.
Mas existe uma questão que não pode ser ignorada. Até onde pode chegar o ódio político? Nos últimos tempos, tornou-se cada vez mais comum transformar adversário político em inimigo pessoal. Nas redes sociais, a agressividade muitas vezes começa com uma postagem, passa para a ofensa, cresce com a ameaça e, quando ninguém coloca freio, pode terminar em violência física. Democracia pressupõe divergência. Oposição faz parte da democracia, crítica faz parte da democracia, fiscalização, cobrança e até ataques políticos, dentro dos limites da lei, fazem parte do jogo democrático.
O que não faz parte da democracia é apontar uma arma para alguém e ameaçar apertar o gatilho. E quando a ameaça alcança a família de um agente público, a situação se torna ainda mais grave. A família não ocupa cargo eletivo, não participa de disputa política e não pode ser transformada em alvo por causa das escolhas ou decisões de quem exerce mandato.
A Prefeitura de São Gabriel da Palha acertou ao repudiar qualquer forma de violência, ameaça, intimidação ou agressão e ao afirmar que divergências políticas, ideológicas ou pessoais jamais justificam atitudes capazes de colocar vidas em risco. Agora cabe às autoridades esclarecer completamente o episódio, responsabilizar quem tiver cometido crimes e garantir que a investigação não fique pela metade.
E fica também uma pergunta incômoda: por que o nome do criminoso não foi divulgado publicamente? O que leva a polícia a esconder da sociedade os nomes de criminosos se não existe nenhuma base legal para isso? Se querem respeitar bandidos, que respeitem. Mas que também sejam respeitados os direitos das vítimas e da população de conhecer, dentro dos limites da lei, o que efetivamente aconteceu.
Porque uma cidade não pode aceitar
que ameaças, agressões e intimidações se transformem em método de convivência. Política
se combate com argumentos, governo se enfrenta com fiscalização, adversário se
derrota nas urnas. Ameaça de morte não é opinião. É violência, e violência
precisa ser tratada como caso de polícia e de Justiça.


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