Por *Elvécio Andrade
Chegam a ser cômicas, se não fossem
preocupantes, algumas propostas apresentadas por candidatos ao Governo do
Espírito Santo para a educação. Há ideias que parecem ter saído de uma reunião
em que ninguém se deu ao trabalho de perguntar o que realmente falta às escolas
capixabas. Entre elas está a velha e requentada promessa de ampliar as chamadas
escolas cívico-militares.
A proposta reaparece como se fosse a
grande invenção capaz de resolver os problemas da educação pública, embora o
Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares criado no governo Jair Bolsonaro
tenha sido oficialmente encerrado pelo governo federal em 2023, com a revogação
do decreto que o instituiu. E aqui está o ponto que precisa ser discutido com
seriedade: educação não se resolve colocando farda dentro da escola.
O aluno precisa de professor
valorizado, formação continuada, biblioteca, laboratório, tecnologia,
alimentação adequada, acompanhamento psicológico e pedagógico, jornada escolar
de qualidade e condições para aprender. Precisa de uma escola que desperte
curiosidade, pensamento crítico, criatividade e autonomia. Precisa aprender a
perguntar, inclusive quando a resposta incomoda.
Porque uma escola pública não deve
ter como objetivo fabricar alunos obedientes. Deve formar cidadãos capazes de
pensar, argumentar, questionar, criar e participar da sociedade. O próprio
Ministério da Educação registrou, na documentação relacionada ao encerramento
do programa federal, questionamentos sobre sua execução, seus resultados e sua
justificativa. Não existe, portanto, espaço para tratar a militarização como
uma espécie de fórmula mágica para todos os problemas educacionais.
E há uma pergunta que os candidatos
deveriam responder antes de prometer mais escolas desse modelo: qual problema
concreto da educação capixaba será resolvido com isso? É falta de professor?
Então contratem e valorizem professores. É evasão escolar? Então descubram por
que o jovem está abandonando a escola e enfrentem as causas. É baixo
desempenho? Então invistam em alfabetização, reforço, formação docente e
estrutura pedagógica.
É falta de disciplina? Então
trabalhem convivência, responsabilidade e respeito dentro de uma política
educacional séria. É precariedade estrutural? Então reformem as escolas. Agora,
transformar a escola em quartel e acreditar que isso, por si só, produzirá
educação de excelência é confundir disciplina com aprendizagem.
E há outro problema: não se pode
afirmar, sem dados específicos, que escolas cívico-militares produzam necessariamente
alunos mais preparados. Isso exige pesquisa e evidência. O que se pode
questionar é a própria prioridade política de investir nesse modelo quando
existem inúmeras outras necessidades educacionais que precisam de recursos e
planejamento. Aliás, o discurso de que a escola precisa ensinar obediência
deveria causar arrepios em qualquer sociedade democrática.
O estudante não é um soldado em
formação. É um cidadão em formação, e cidadão não precisa aprender a obedecer.
Precisa aprender a pensar. E talvez seja justamente aí que esteja o problema de
determinadas propostas eleitorais: elas parecem muito preocupadas em idiotizar o
aluno, mas pouco preocupadas em fazê-lo dominar português, matemática,
ciências, história, tecnologia e, principalmente, o exercício da cidadania.
Enquanto isso, professores continuam
enfrentando dificuldades, escolas precisam de investimentos e milhares de
jovens precisam de uma educação que lhes permita disputar o mercado de trabalho
e construir um futuro melhor. A pergunta, portanto, é simples: o Espírito Santo
precisa de mais escolas com farda ou de escolas melhores?
Porque, quando a proposta para
melhorar a educação começa pela farda e termina na disciplina, talvez esteja
faltando justamente aquilo que deveria existir em todo bom projeto educacional:
conteúdo, evidência, planejamento e compromisso com o futuro dos estudantes. Farda
pode até impressionar na fotografia eleitoral.
Mas quem vai prestar o Enem, entrar
na universidade, disputar uma vaga de emprego e enfrentar os desafios da vida é
o aluno. E para isso ele precisa muito mais do que aprender a marchar, a ter
disciplina de quarteis, ter aulas com militares que, conforme já divulgado pela
imprensa, sequer sabem o básico do próprio idioma.


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